A Associação Brasileira de Franchising (ABF) realizou em 19 de agosto o primeiro Summit de Inteligência Artificial do setor, reunindo cerca de 260 participantes (presenciais e online) para discutir como a IA já mudou a estratégia e o relacionamento entre franqueadoras e franqueados no Brasil. O recado central, resumido por um executivo do Grupo Trigo: “dado por dado, vira estoque”.
O que foi discutido
O painel “Do Dado à Decisão” reuniu executivos de franqueadoras de portes diferentes para tratar a inteligência artificial não como projeto piloto isolado, mas como parte da operação do dia a dia das redes. Foi o primeiro evento do tipo promovido pela ABF dedicado especificamente a IA, o que por si só sinaliza a mudança de status do tema dentro da entidade: deixou de ser pauta de inovação e virou pauta de gestão.
Matheus Garibalde, diretor de produtos e dados do Grupo O Boticário, foi direto sobre o tamanho da mudança que a IA exige das franqueadoras: “a mudança não é apenas tecnológica. Ela demanda envolvimento das equipes de comunicação, revisão de processos e uma transformação cultural que começa na liderança. Mais do que acrescentar IA ao negócio, é preciso repensar o próprio negócio a partir da IA”. A fala aponta para um erro comum: tratar IA como um plugin a mais no sistema de gestão, em vez de uma mudança que atravessa comunicação, processo e cultura da rede inteira.
Gustavo Lacerda, do Grupo Trigo, resumiu o valor prático dos dados coletados pelas franquias em uma frase curta: “dado por dado, vira estoque”, numa analogia direta com o produto físico que qualquer franqueado entende: dado disperso não vale nada, dado acumulado e organizado se transforma em ativo que pode ser usado para decidir.
Alexandre Passos, sócio do escritório Baril Advogados, trouxe o contraponto jurídico do avanço da IA no setor, questionando diretamente as franqueadoras presentes: “a sua franqueadora está preparada? Afinal, dados estão ligados diretamente à governança e essa não deve existir para impedir a inovação, mas para permitir que aconteça de forma estruturada e segura”. Uso de dados de clientes e de operação por ferramentas de IA precisa respeitar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), e qualquer novo processo automatizado que mude a relação entre franqueadora e franqueado pode exigir ajuste na própria Circular de Oferta de Franquia (COF).
O painel também introduziu ao público do franchising o conceito de Generative Engine Optimization (GEO): segundo os organizadores, uma evolução da lógica de otimização de conteúdo que permite que marcas sejam “compreendidas, recomendadas e citadas diretamente” por ferramentas de IA generativa, e não só bem posicionadas em buscadores tradicionais.
O evento foi organizado dentro da Comissão de Transformação Digital da ABF, coordenada por Ana Flávia Martins, estrutura permanente da associação criada justamente para acompanhar esse tipo de mudança de perto e levar diretrizes práticas às franqueadoras associadas, em vez de deixar cada rede descobrir sozinha o que funciona.
Marcas presentes
Participaram do painel representantes de Grupo Algar, Grupo Trigo, Mania de Churrasco, Mapfry, market4u, O Boticário e Zinz, além do escritório Baril Advogados. A diversidade de setores, de churrascaria a serviços B2B, reforça que a discussão não ficou restrita a um nicho: dado de operação virou insumo de gestão em qualquer tipo de rede.
O que isso significa para você
Se você quer comprar uma franquia: perguntar sobre tecnologia deixou de ser opcional na hora de avaliar uma marca. Uma franqueadora que já usa dados para prever perda, otimizar estoque ou orientar decisão é sinal de investimento real em dar suporte à operação do franqueado, não só em vender novas unidades. Vale perguntar diretamente quais ferramentas de gestão e dados vêm incluídas na taxa de royalties e quais são cobradas à parte, e pedir para ver, na prática, um relatório real gerado pelo sistema da rede, não só o print de demonstração usado na venda da franquia.
Se você quer transformar seu negócio em franquia: o alerta de Alexandre Passos merece atenção redobrada. Se o seu negócio já usa alguma automação ou coleta dados de clientes, formatar a franquia exige documentar isso na COF e garantir que o uso desses dados, inclusive pelos futuros franqueados, está de acordo com a LGPD desde o primeiro contrato assinado, não como ajuste feito depois que a rede já cresceu e o problema já existe em dezenas de unidades ao mesmo tempo. A frase de Garibalde serve de alerta parecido: quem formata a franquia pensando em IA só como recurso de sistema, sem repensar processo e comunicação, tende a herdar o mesmo retrabalho em escala, só que multiplicado pelo número de franqueados.
Fonte: ABF
Para entender como a margem de uma franquia é calculada na prática, incluindo o peso dos custos operacionais que ferramentas de gestão por dados ajudam a reduzir, veja Como Calcular o Payback de uma Franquia.
Consulte o glossário e entenda o que é a COF antes de formatar ou comprar uma franquia →