Estudos de Caso: Três Franquias que Deram Errado no Brasil (Parte 1)

Toda rede de franquia que quebra deixa uma licao especifica, nao generica. “Deu errado” nao explica nada, o que explica e o mecanismo exato do erro: uma divida que a operacao nao aguentou carregar, um modelo de cobranca que sufocou quem pagava por ele, ou uma fraude armada para nunca existir de verdade. Esta e a primeira parte da serie Estudos de Caso, com tres casos reais e documentados do mercado brasileiro de franquias, cada um com uma causa diferente, para que a licao sirva de verdade, e nao vire clichê de que franquia e sempre garantia de sucesso.

Caso 1: SouthRock e a expansao sem folego financeiro

A SouthRock Capital era a holding responsavel por operar as marcas Starbucks e Subway no Brasil, alem de TGI Fridays e restaurantes de aeroporto. Em outubro de 2023, a empresa pediu recuperacao judicial, com uma divida total de R$ 1,8 bilhao. Segundo reportagem da InvestNews de 21/02/2024 (atualizada em 08/08/2025), o proprio plano de recuperacao judicial cita como causas o “excesso de endividamento, a baixa lucratividade decorrente do fechamento de seus restaurantes por diversos meses em funcao da covid-19 e impossibilidade de obtencao de novas linhas de credito”, que “comprometeram a capacidade de as recuperandas honrarem seus compromissos financeiros”. A empresa tambem citou queda de 95% nas vendas em 2020, no auge da pandemia.

Ao longo de 2023, 64 lojas foram fechadas, a maior parte delas Starbucks. O plano de recuperacao so foi homologado pela Justica em abril de 2025, e prevê que a empresa volte a ter lucro apenas em 2032. A licao aqui nao e sutil: operar duas marcas internacionais de grande porte ao mesmo tempo exige um colchao financeiro capaz de atravessar um choque como uma pandemia sem quebrar. Sem esse colchao, mesmo marcas globalmente fortes nao protegem quem administra a operacao local da divida que ela mesma acumulou.

Caso 2: OdontoCompany e o modelo que sufocou quem pagava por ele

A OdontoCompany, rede de clinicas odontologicas franqueadas, viveu o que o Jornal do Brasil chamou, em reportagem de 12/05/2025, de “implosao” apos uma fusao controversa: “clinicas fechadas, estruturas abandonadas, profissionais sem salario, franqueados endividados”. Segundo a mesma reportagem, os franqueados pagavam “royalties brutos de 9% sobre o faturamento, alem de taxas sobre compras de insumos”, enquanto a rede promovia uma “expansao desenfreada, sem qualquer estudo de viabilidade territorial”, abrindo clinicas em ruas vizinhas que competiam entre si e “sufocavam” outras unidades da propria marca.

Os numeros confirmam a dimensao do problema: segundo ranking da ABF (Associacao Brasileira de Franchising) reproduzido pela ISTOE Dinheiro em 08/03/2026, a rede caiu de 1.577 unidades em 2024 para 1.153 em 2025, uma queda de 424 unidades em um unico ano, liderando o ranking de fechamentos do franchising brasileiro. Vale registrar que a empresa deu uma versao mais amena publicamente, dizendo que o movimento reflete foco “no fortalecimento da operacao das unidades ja existentes, faturamento saudavel e aumento de performance por clinica”. A licao pratica: um royalty alto combinado com expansao sem estudo de territorio cria concorrencia interna entre as proprias unidades da rede, o oposto do que uma franquia deveria proteger.

Caso 3: Cia da Empada e a franquia que nunca existiu

Nem todo negocio que da errado e por gestao ruim, alguns sao fraude desde o primeiro dia. Em abril de 2025, a Policia Civil do Rio de Janeiro (12ª DP, Copacabana) deflagrou uma operacao contra um grupo que vendia franquias ficticias de uma suposta rede de lojas de empada, segundo reportagem da coluna de Mirelle Pinheiro no Metropoles, publicada em 02/04/2025. O esquema envolvia “falsidades nos contratos, uma vez que a marca sequer possui registro junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial”, alem do uso de “diversas pessoas juridicas distintas, como detentoras da marca, alem de terceiros para intermediar as negociacoes”.

A reportagem confirma pelo menos 10 vitimas, com prejuizo financeiro direto estimado em R$ 1 milhao. Algumas “pagaram por um quiosque da franquia e nunca receberam”, outras “receberam pontos comerciais que estavam com alugueis atrasados e foram despejados”, e um dos casos envolveu cheques sem fundos de quase R$ 300 mil. O lider do grupo tinha 19 anotacoes criminais anteriores por estelionato e outros crimes. A licao aqui e a mais basica de todas: antes de pagar qualquer valor, confirme se a marca tem registro no INPI e peca a Circular de Oferta de Franquia (COF), documento que a Lei 13.966/2019 exige por lei. Uma franquia real sempre tem esse documento, uma franquia fantasma nunca tem.

O que os tres casos ensinam juntos

Financas frageis, modelo de cobranca que nao deixa margem para quem opera, e ausencia total de lastro legal, sao tres formas diferentes de a mesma promessa (comprar um sistema testado, com risco reduzido) deixar de ser verdade. Antes de assinar qualquer contrato de franquia, vale pedir o historico financeiro da franqueadora, entender exatamente quanto voce vai pagar em royalties e taxas frente a sua margem esperada, e confirmar a existencia legal da marca e da COF. O quiz do FranchiseLAB ajuda a organizar esse tipo de avaliacao antes de qualquer decisao. Para ver esse tipo de checagem aplicada a marcas especificas, veja nossas analises independentes de Cacau Show e WePink.

Perguntas frequentes

Esses tres casos significam que franquia e um investimento arriscado?

Nao generalizam isso. Sao tres casos especificos, com causas identificaveis e evitaveis: divida excessiva, modelo de cobranca mal calibrado e fraude criminosa. A maioria das redes de franquia no Brasil opera de forma regular, o objetivo desta serie e mostrar o que checar para nao cair nos mesmos erros.

Como saber se uma franqueadora esta financeiramente saudavel antes de investir?

A Circular de Oferta de Franquia (COF), exigida pela Lei 13.966/2019, deve trazer balancos dos ultimos exercicios. Vale tambem pesquisar se ha processos de recuperacao judicial em andamento e conversar com franqueados atuais sobre a saude financeira percebida da rede.

Um royalty alto e sempre um sinal de alerta?

Nao isoladamente, mas precisa ser avaliado junto com a margem real da operacao. O problema do caso OdontoCompany nao foi so o percentual de 9%, foi a combinacao desse percentual com expansao sem planejamento territorial, que reduziu o faturamento de cada unidade.

Como confirmar se uma franquia e legitima antes de pagar qualquer valor?

Verifique se a marca tem registro no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) e exija a Circular de Oferta de Franquia (COF) antes de qualquer pagamento, documento obrigatorio por lei. Desconfie de quem pressiona para pagar rapido, sem tempo para checar esses documentos.

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